Direto de Nova Iorque, Jubilee toca de graça no Setor Comercial Sul

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O projeto Confronto Total chega ao Setor Comercial Sul com a mais tradicional ação de ocupação urbana de Brasília, o Confronto SoundSystem, que realiza dois bailes na rua nos dia 9 de junho e 4 de agosto, com convidados especiais. O primeiro round acontece no dia 9 de junho com a presença de Jubilee, diretamente de Nova York, e para uma única apresentação no Brasil.

A Jubilee é uma das principais artistas do selo Mixpak e seus sets costumam transitar com a mesma qualidade por influências que vão do Dancehall ao Miami Bass. Ela também acumula passagens por pistas de dança e festivais do mundo todo levando seu som do Sónar ao Boiler Room, além da sua residência mensal na BBC de Londres.

A festa traz ainda os DJs do coletivo Confronto SoundSystem. O projeto Confronto Total é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

Line up – 9 de junho (sábado):
Jubilee
https://soundcloud.com/jubileedj
Confronto SoundSystem
https://soundcloud.com/confronto-soundsystem
Rassan (Nice & Deadly)
https://soundcloud.com/nicendeadly

A origem do Confronto Soundsystem e das festas de rua

Há mais ou menos 12 anos uma das questões mais recorrentes do nosso grupo de amigos era a percepção de como em Brasília tudo era segmentado, como as separações físicas dos espaços, os distanciamentos da proposta urbanística, encontravam ecos na estratificação social e nas relações entre as pessoas. Esse desconforto, mesmo sendo contraposto ao nosso total encantamento com a beleza do cerrado e a adesão ao ritmo da cidade, foi responsável pela intenção de produzir algo que pudesse melhorar exatamente o que nos incomodava.

O Confronto Soundsystem nasceu dessa necessidade de promover a mistura de tipos de gente, propiciar encontros inesperados e fortuitos de pessoas que naturalmente não se esbarrariam, por acaso, em uma “esquina” de uma superquadra. A essa motivação original foi integrada a da retomada do espaço público a quem de direito ele deveria pertencer: o morador de Brasília.

O centro da cidade, com sua ocupação sazonal, vazio nos finais de semana, passou a ser o alvo dessa tentativa de intervenção e reocupação. As festas foram utilizadas como o elemento aglutinador que conduzia as pessoas a uma nova relação com o espaço público e uma reapropriação subversiva de uma área originalmente destinada a uso institucional. O sistema de som jamaicano foi adaptado para a nossa realidade e misturado com diversas influências locais, como os bailes de periferia, as radiolas maranhenses, os sistemas de autofalantes dos ambulantes, para ser utilizado como a ferramenta que permitiu a reunião em torno da festa e a ocupação do centro de Brasília. Para isso foi definida a formula de financiamento das nossas ações, e que é utilizada até hoje por nós, que faríamos festas pagas com 100% da destinação total do lucro para bancar as festas de rua.

A primeira festa realizada na rua pelo Confronto aconteceu em 2004, na Praça do Povo, encravada no miolo do Setor Comercial Sul, ela foi o tubo de ensaio para a comprovação que de uma forma espontânea era possível a rica convivência de uma fauna totalmente diversificada num mesmo lugar.

A patricinha do plano, os travestis, os usuários de crack, o fã de rap da periferia, o porteiro de prédio, a caixa das lojas americanas, o playboy, e todos que estavam ali para escutar música e se divertir, juntos, de uma forma livre e gratuita, sem que a sua identidade social ou nível econômico fossem o passaporte que permitisse a sua participação. O SCS foi escolhido por ser uma área central e com rica malha de transporte, próximo da rodoviária e do metrô, o que garantia o fluxo livre de moradores de diversas lugares do Distrito Federal, do morador das cidades satélites ao das superquadras do plano. A partir da sistemática e constante ocupação foi criada uma tradição de se frequentar as festas no Setor Comercial Sul, naturalizando-se assim uma segunda camada de uso desta região da cidade. A Praça do Trabalhador, antes esquecida e nunca utilizada para eventos de caráter cultural, foi transformada no nosso palco mais constante e representativo da nossa ação nas áreas públicas de Brasília.

O Sound System como ferramenta de Ocupação da Cidade

“Os estúdios de gravação de Kingston eram precários (e continuam não tendo condições de competir com os estúdios do “Primeiro Mundo”). Lição: não precisamos ter os últimos upgrades, ou as máquinas mais poderosas, para ter as idéias – ou inventar os procedimentos – que vão determinar os futuros desenvolvimentos das máquinas que – por sermos pobres – não podemos ter ou construir.” “A Filosofia do Dub” – Hermano Vianna
– Folha de São Paulo – 2003

Em todas as conversas em que tivemos pensando em como levaríamos as festas para as ruas e praças de Brasília, este trecho do texto do Hermano Vianna, volta e meia era citado como argumento que justificava que a nossa empreitada seria sim bem sucedida. Na Jamaica, na década de 50 o custo com copyright, das reproduções radiofônicas de sucessos americanos, o alto valor gasto na contratação e manutenção das bandas de baile, fez com que as festas migrassem dos salões luxuosos, basicamente destinados aos turistas, e fosse para rua passando a acontecer, por uma questão de economia, em torno do som mecânico do sistema de som. Essa realidade nos fazia crer que se num contexto muito mais carente que o nosso, foi possível de forma eficiente se criar uma nova tradição que culminou com o surgimento das festas de rua em Kingston, na nossa realidade em Brasília, com muito mais recursos, tinhamos certeza que a iniciativa do Confronto Soundsystem vingaria. Para nós, naquele momento, era questão de tempo fazer com que as festas se transformassem em um acontecimento e criassem uma nova relação entre o morador da cidade e as áreas “abandonadas” do Setor Comercial Sul.

O lugar de eleição do Sound System é a rua. Talvez Brasília, com sua arquitetura particular, e por ser uma cidade nova e ainda no processo de construção de sua identidade cultural, o transplante de uma manifestação estrangeira “terceiro mundista”, já consolidada e com tamanho apelo popular, como o Sound System, tenha sido fundamental para que houvesse uma identificação imediata do frequentador das festas de rua. Além disso, acabamos sendo beneficiados por diversos fatores que impulsionaram a cultura Sound System aqui. Por exemplo, foi fundamental para o sucesso das festas a massificação do acesso as músicas pela disseminação dos arquivos mp3, que permitia se escutar a uma infinidade de músicas de sons jamaicanos de quase 40 anos de produção de qualidade. Junte-se a isso o fato que naquele momento o Dub havia se transformado num estilo musical que dialogava com diversos outros estilos (foi nessa época que foi lançada a versão Dub do “Dark Side of the Moon”, do Easy Star All-Stars – O”Dub Side of The Moon”) o que criava um atrativo a mais e a facilidade da mistura nas festas de diversos públicos com gostos distintos.

É dentro desse contexto que apresentamos este projeto, pleiteado realizar 02 edições da mais tradicional ocupação/intervenção pública de Brasília, justamente nesse feliz momento em que a cidade descobriu sua vocação outdoor e passa a viver suas ruas como nunca. Temos orgulho de ter ajudado a construir isso.

Legado e Pioneirismo

12 anos e inúmeras festas depois, é evidente que de alguma forma o Confronto cumpriu a sua proposta inicial. O sem número de eventos que acontecem na rua, a variação de festas que tem o espaço público como lugar, parecem justificar o que foi pensado e colocado em prática lá atrás. E mesmo que ainda não seja o ideal, de alguma forma, o que foi criado deixou o seu legado e transformou a vida da cidade e a ocupação do centro de Brasília em sementes que puderam ser de uma forma criativa e participativa definitivamente germinadas.

Serviço:
Confronto Total – Round 1 – Jubilee (NY)
Data: 9 de junho (sábado) a partir das 22 horas
Local: Beco da CAL (Casa de Cultura da América Latina – Quadra 4 – Setor Comercial Sul (SCS)
Entrada franca
Classificação indicativa: 18 anos (Entrada mediante apresentação do RG)

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