Direto da Inglaterra, Sam Binga toca de graça no Setor Comercial Sul

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Preparado para o Round 2 do Confronto Total? Antes mesmo que a contagem possa ser aberta a gente levanta do tatame e se prepara para o Knockout final. O Confronto Total – Round 2 acontece no dia 4 de agosto, novamente no Beco da Cal, e traz mais uma atração super especial – Sam Binga, diretamente de Bristol (inglaterra) para uma única apresentação no Brasil. Os sets do Binga costumam transitar por diversas vertentes da música eletrônica, indo do Dancehall ao Jungle, tendo sempre os ritmos jamaicanos como base das suas misturas sonoras.

Line-up:
Sam Binga (https://soundcloud.com/sam_binga)
Confronto Soundsystem (https://soundcloud.com/confronto-soundsystem)
Megaton Dub (https://soundcloud.com/megatondub)

A origem do Confronto Soundsystem e das festas de rua

Há mais ou menos 12 anos uma das questões mais recorrentes do nosso grupo de amigos era a percepção de como em Brasília tudo era segmentado, como as separações físicas dos espaços, os distanciamentos da proposta urbanística, encontravam ecos na estratificação social e nas relações entre as pessoas. Esse desconforto, mesmo sendo contraposto ao nosso total encantamento com a beleza do cerrado e a adesão ao ritmo da cidade, foi responsável pela intenção de produzir algo que pudesse melhorar exatamente o que nos incomodava.

O Confronto Soundsystem nasceu dessa necessidade de promover a mistura de tipos de gente, propiciar encontros inesperados e fortuitos de pessoas que naturalmente não se esbarrariam, por acaso, em uma “esquina” de uma superquadra. A essa motivação original foi integrada a da retomada do espaço público a quem de direito ele deveria pertencer: o morador de Brasília.

O centro da cidade, com sua ocupação sazonal, vazio nos finais de semana, passou a ser o alvo dessa tentativa de intervenção e reocupação. As festas foram utilizadas como o elemento aglutinador que conduzia as pessoas a uma nova relação com o espaço público e uma reapropriação subversiva de uma área originalmente destinada a uso institucional. O sistema de som jamaicano foi adaptado para a nossa realidade e misturado com diversas influências locais, como os bailes de periferia, as radiolas maranhenses, os sistemas de autofalantes dos ambulantes, para ser utilizado como a ferramenta que permitiu a reunião em torno da festa e a ocupação do centro de Brasília. Para isso foi definida a formula de financiamento das nossas ações, e que é utilizada até hoje por nós, que faríamos festas pagas com 100% da destinação total do lucro para bancar as festas de rua.

A primeira festa realizada na rua pelo Confronto aconteceu em 2004, na Praça do Povo, encravada no miolo do Setor Comercial Sul, ela foi o tubo de ensaio para a comprovação que de uma forma espontânea era possível a rica convivência de uma fauna totalmente diversificada num mesmo lugar.

A patricinha do plano, os travestis, os usuários de crack, o fã de rap da periferia, o porteiro de prédio, a caixa das lojas americanas, o playboy, e todos que estavam ali para escutar música e se divertir, juntos, de uma forma livre e gratuita, sem que a sua identidade social ou nível econômico fossem o passaporte que permitisse a sua participação. O SCS foi escolhido por ser uma área central e com rica malha de transporte, próximo da rodoviária e do metrô, o que garantia o fluxo livre de moradores de diversas lugares do Distrito Federal, do morador das cidades satélites ao das superquadras do plano. A partir da sistemática e constante ocupação foi criada uma tradição de se frequentar as festas no Setor Comercial Sul, naturalizando-se assim uma segunda camada de uso desta região da cidade. A Praça do Trabalhador, antes esquecida e nunca utilizada para eventos de caráter cultural, foi transformada no nosso palco mais constante e representativo da nossa ação nas áreas públicas de Brasília.

O Sound System como ferramenta de Ocupação da Cidade

“Os estúdios de gravação de Kingston eram precários (e continuam não tendo condições de competir com os estúdios do “Primeiro Mundo”). Lição: não precisamos ter os últimos upgrades, ou as máquinas mais poderosas, para ter as idéias – ou inventar os procedimentos – que vão determinar os futuros desenvolvimentos das máquinas que – por sermos pobres – não podemos ter ou construir.” “A Filosofia do Dub” – Hermano Vianna
– Folha de São Paulo – 2003

Em todas as conversas em que tivemos pensando em como levaríamos as festas para as ruas e praças de Brasília, este trecho do texto do Hermano Vianna, volta e meia era citado como argumento que justificava que a nossa empreitada seria sim bem sucedida. Na Jamaica, na década de 50 o custo com copyright, das reproduções radiofônicas de sucessos americanos, o alto valor gasto na contratação e manutenção das bandas de baile, fez com que as festas migrassem dos salões luxuosos, basicamente destinados aos turistas, e fosse para rua passando a acontecer, por uma questão de economia, em torno do som mecânico do sistema de som. Essa realidade nos fazia crer que se num contexto muito mais carente que o nosso, foi possível de forma eficiente se criar uma nova tradição que culminou com o surgimento das festas de rua em Kingston, na nossa realidade em Brasília, com muito mais recursos, tinhamos certeza que a iniciativa do Confronto Soundsystem vingaria. Para nós, naquele momento, era questão de tempo fazer com que as festas se transformassem em um acontecimento e criassem uma nova relação entre o morador da cidade e as áreas “abandonadas” do Setor Comercial Sul.

O lugar de eleição do Sound System é a rua. Talvez Brasília, com sua arquitetura particular, e por ser uma cidade nova e ainda no processo de construção de sua identidade cultural, o transplante de uma manifestação estrangeira “terceiro mundista”, já consolidada e com tamanho apelo popular, como o Sound System, tenha sido fundamental para que houvesse uma identificação imediata do frequentador das festas de rua. Além disso, acabamos sendo beneficiados por diversos fatores que impulsionaram a cultura Sound System aqui. Por exemplo, foi fundamental para o sucesso das festas a massificação do acesso as músicas pela disseminação dos arquivos mp3, que permitia se escutar a uma infinidade de músicas de sons jamaicanos de quase 40 anos de produção de qualidade. Junte-se a isso o fato que naquele momento o Dub havia se transformado num estilo musical que dialogava com diversos outros estilos (foi nessa época que foi lançada a versão Dub do “Dark Side of the Moon”, do Easy Star All-Stars – O”Dub Side of The Moon”) o que criava um atrativo a mais e a facilidade da mistura nas festas de diversos públicos com gostos distintos.

É dentro desse contexto que apresentamos este projeto, pleiteado realizar 02 edições da mais tradicional ocupação/intervenção pública de Brasília, justamente nesse feliz momento em que a cidade descobriu sua vocação outdoor e passa a viver suas ruas como nunca. Temos orgulho de ter ajudado a construir isso.

Legado e Pioneirismo

12 anos e inúmeras festas depois, é evidente que de alguma forma o Confronto cumpriu a sua proposta inicial. O sem número de eventos que acontecem na rua, a variação de festas que tem o espaço público como lugar, parecem justificar o que foi pensado e colocado em prática lá atrás. E mesmo que ainda não seja o ideal, de alguma forma, o que foi criado deixou o seu legado e transformou a vida da cidade e a ocupação do centro de Brasília em sementes que puderam ser de uma forma criativa e participativa definitivamente germinadas.

Serviço:
Confronto Total – Round 1 – Jubilee (NY)
Data: 4 de agosto (sábado) a partir das 22 horas
Local: Beco da CAL (Casa de Cultura da América Latina – Quadra 4 – Setor Comercial Sul (SCS)
Entrada franca
Classificação indicativa: 18 anos (Entrada mediante apresentação do RG)
Apoio: Hiperespaço, No Setor
O Confronto Total – Round 2 faz parte da programação do Festival Setor Criativo Sul
Este projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

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